O euro digital está no centro de uma crescente divisão política e económica na União Europeia. Mais de 60 economistas alertam que, sem este instrumento, a UE poderá perder controlo sobre a sua própria moeda e reforçar a dependência de empresas de pagamentos dos Estados Unidos.
Segundo uma carta aberta enviada aos eurodeputados, e divulgada pelo Financial Times, um euro digital público e robusto é essencial para garantir soberania monetária, estabilidade financeira e resiliência económica.
Economistas alertam para perda de controlo monetário
Na carta, assinada por 68 economistas, incluindo Thomas Piketty, os académicos defendem que a Zona Euro está excessivamente dependente de serviços de pagamentos digitais sediados nos EUA. Além disso, alertam para riscos de alavancagem geopolítica, interesses comerciais estrangeiros e fragilidades sistémicas.
Os economistas sublinham que 13 países da área do euro não dispõem de qualquer solução doméstica de pagamentos digitais. Como resultado, dependem exclusivamente de esquemas internacionais como Visa, Mastercard e PayPal.
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BCE avança, mas Parlamento mantém dúvidas
O Conselho Europeu já apoiou o plano do Banco Central Europeu para lançar um equivalente electrónico ao dinheiro físico até 2029. No entanto, permanece incerto se o Parlamento Europeu reunirá uma maioria favorável numa votação decisiva prevista ainda para este ano.
De acordo com os economistas, desenvolvimentos recentes tornaram estes riscos mais do que teóricos. Por isso, defendem que o euro digital é “a única defesa” da Europa para manter o controlo sobre o seu sistema monetário.
Banca europeia resiste ao projecto
Entretanto, a indústria bancária europeia tem pressionado para reduzir a dimensão do projecto. Em Novembro, 14 dos maiores bancos da região alertaram que o euro digital poderia prejudicar iniciativas privadas destinadas a competir com sistemas de pagamento norte-americanos.
Além disso, associações bancárias classificaram o projecto como complexo e dispendioso, defendendo que oferece poucos benefícios diretos aos consumidores.
Depósitos e limites preocupam os bancos
Segundo os planos actuais, cada cidadão poderá deter até 3.000 euros numa carteira digital. Esse montante não estaria disponível como depósito para os bancos privados. Para alguns analistas, este ponto explica a resistência do sector.
Ainda assim, os economistas apelam aos decisores europeus para resistirem ao lobby financeiro e avançarem com um euro digital ao serviço da sociedade.

