A ideia não é teórica. Retalhistas sul-africanos já testaram a aceitação de criptoativos no ponto de venda, através de parceiros de carteiras digitais e fluxos QR, e os grandes processadores globais estão a integrar a mesma capacidade nos seus gateways. A questão não é se isto vai chegar ao comércio de rua, mas sim com que rapidez se tornará uma infraestrutura invisível por detrás de um simples toque ou leitura de código.
Porque é que os comerciantes se importam: liquidação instantânea, MDR mais baixo, menos fricções
A economia dos cartões foi construída para reconciliações em lote e para externalidades de risco: interchange, taxas de esquema, margens dos adquirentes, operações de chargeback e spreads cambiais quando há FX envolvido. A liquidação com stablecoins comprime toda essa estrutura. Quando uma compra é liquidada como uma transferência de tokens com finalidade em segundos, os adquirentes podem praticar taxas de desconto ao comerciante (MDR) mais baixas, os marketplaces podem pagar aos vendedores instantaneamente e as equipas de tesouraria podem varrer fundos quase em tempo real. A exposição a chargebacks diminui em categorias de baixo risco, porque o fluxo passa a assemelhar-se mais a dinheiro, com a protecção do consumidor assegurada por política, em vez de longos períodos de disputa.
Como funciona no ponto de venda: da carteira ao recibo
Dois modelos dominam. No primeiro, nativo on-chain, o cliente paga a partir de uma carteira compatível para um endereço do comerciante que está por detrás de um gateway de pagamentos. O gateway monitoriza o evento on-chain, confirma a recepção após um limiar definido por política e envia a aprovação para o POS. O comerciante pode manter stablecoins ou converter automaticamente para moeda fiduciária através de um parceiro de liquidez, com liquidação para a conta bancária na cadência que escolher.
No segundo modelo, híbrido, a experiência do cliente parece idêntica à de um cartão ou QR tradicional, enquanto o processador liquida o comerciante com stablecoins nos bastidores, sobretudo em operações transfronteiriças, substituindo etapas lentas de correspondentes por transferências instantâneas de tokens. A conformidade fica nas extremidades: KYC nas carteiras e nos off-ramps, mensagens da travel rule entre prestadores, e controlos do emissor para congelamento e recuperação quando exigido por lei.
Na prática, um cliente lê um QR na caixa, a sua carteira constrói uma transferência de stablecoin numa rede de baixo custo, paga para um endereço de recolha do comerciante controlado por um prestador regulado e apresenta o estado de “pago” ao operador em poucos segundos. O prestador pode creditar a liquidação fiduciária na conta bancária do comerciante no próprio dia, ou manter os fundos numa subconta em stablecoins para pagamentos imediatos a fornecedores. O POS vê apenas “aprovado”, o operador entrega as compras e a contabilidade recebe um lançamento perfeitamente conciliado, com o ID da transacção on-chain incorporado.
Estudo de caso: como o Pick n Pay tornou o cripto no ponto de venda algo normal
A implementação da Pick n Pay mostrou que não é necessário reformular a loja para aceitar activos digitais. O retalhista manteve os seus fluxos QR e POS existentes e ligou um gateway cripto à mesma orquestração que gere cartões e EFT instantâneos. No front-end, o cliente lê um código dinâmico, autoriza o pagamento numa carteira suportada e recebe confirmação em segundos. No meio, o gateway gere a selecção da rede, custos de gas, monitorização da mempool e limiares de risco, e depois devolve a confirmação ao POS quando as condições de liquidação são cumpridas. No back-end, os fundos convertem automaticamente para rand ou permanecem numa conta segregada de recolha em stablecoins até que uma regra de varrimento seja executada, com todos os movimentos reflectidos no ERP do retalhista. A loja nunca toca em chaves privadas, nunca assume risco de mercado para além de uma janela muito curta e nunca altera o comportamento dos operadores de caixa. A lição prática é clara: a aceitação de cripto pode ser implementada como um novo meio de pagamento, não como um novo sistema de loja.
O valor prático para o retalhista é triplo. Primeiro, menor custo de aceitação em transacções elegíveis, porque a liquidação é on-chain e a reconciliação é atómica. Segundo, conversão de caixa mais rápida, já que liquidações ao fim-de-semana e fora do horário passam a ser normais. Terceiro, operações mais limpas, porque cada recibo está ligado a uma referência on-chain e cada reembolso pode ser automatizado pelo mesmo canal. Para as finanças, isso significa menos contas transitórias; para o apoio ao cliente, menos pedidos do tipo “onde está o meu reembolso”; e para as compras, pagamentos a fornecedores podem ser accionados directamente a partir dos fluxos de vendas quando determinados níveis de inventário são atingidos. As imperfeições continuarão a ser ajustadas à medida que as soluções se multiplicam, mas estes são tempos extraordinariamente entusiasmantes.
Cartões mais stablecoins, não um ou outro
A maioria dos retalhistas não vai abandonar a aceitação de cartões; vai antes adicionar stablecoins onde estas reduzem custos ou fricções. Um modelo híbrido comum mantém os cartões para autorização no front-end, usando stablecoins para a liquidação de back-end entre o adquirente e o comerciante, reduzindo custos transfronteiriços e acelerando o financiamento do comerciante sem alterar o hábito do cliente de “tocar no plástico”. Outro oferece vias duplas na caixa: o cliente paga por cartão ou por carteira, com MDR mais baixo para stablecoins para incentivar a adopção. Um terceiro encaminha reembolsos via stablecoin independentemente do meio original, porque é mais barato e rápido devolver o dinheiro ao cliente, especialmente em compras internacionais. Todos entregam benefícios rapidamente, preservando a base de aceitação construída ao longo de anos.
Conformidade e risco: tratados como equivalentes a numerário, concebidos como sistemas
No POS do retalho, a postura correcta é tratar stablecoins lastreadas em moeda fiduciária como numerário e equivalentes de numerário do ponto de vista de política, gerindo o risco de crédito do emissor como qualquer outra contraparte. O KYC fica a cargo das carteiras e dos off-ramps; o rastreio de sanções e as mensagens da travel rule decorrem entre prestadores regulados; e a monitorização de actividade suspeita utiliza tanto análise on-chain como sinais tradicionais. A exposição de tesouraria pode ser minimizada através de conversão intradiária para fiduciário ou pela manutenção exclusiva em contas de custódia bancária que permitam segregação, congelamento, recuperação e atestação clara de reservas. Mantém-se a unicidade do dinheiro; apenas o movemos em vias mais rápidas.
Porque isto vai proliferar: três volantes que se reforçam mutuamente
Economia: à medida que o volume cresce, o rendimento das reservas e os custos de processamento mais baixos permitem aos prestadores praticar preços de aceitação inferiores ao MDR tradicional, ao mesmo tempo que melhoram o tempo de acesso ao caixa; os comerciantes seguem os incentivos.
Infra-estrutura: redes com taxas previsíveis e elevado throughput, aliadas a custódia de nível bancário e ferramentas de gateway, ultrapassaram o limiar para experiências de consumo.
Procura: o comércio transfronteiriço e o turismo continuam a crescer; os clientes esperam reembolsos instantâneos e saldos em tempo real; os comerciantes esperam liquidação ao fim-de-semana e reconciliação programável. Acrescente-se que bancos e redes já estão a testar liquidação com stablecoins, e o caminho para o mainstream parece mais um plano de implementação do que uma hipótese.
Os adquirentes podem financiar comerciantes mais rapidamente, com menos fricção operacional. A banca transaccional pode oferecer contas de recolha em stablecoins com motores de política, controlos de despesa e pagamentos instantâneos a fornecedores. As mesas de FX podem monetizar a ponte entre stablecoins em rand e em dólar com spreads transparentes. A custódia torna-se central, oferecendo segregação, recuperação e atestação que os grandes retalhistas exigem. Processadores e gateways ganham um novo diferenciador — liquidação transfronteiriça instantânea e reembolsos programáveis — sem pedir aos comerciantes que mudem de plataforma. A postura vencedora é a parceria: os bancos fornecem o perímetro regulado e a tesouraria; os prestadores entregam a experiência de carteira e a conectividade às redes; os retalhistas obtêm taxas mais baixas e clientes mais satisfeitos.
Uma perspectiva ponderada
Esta mudança não acontecerá de um dia para o outro, e os carris de cartões não vão desaparecer. O que vai mudar é o caminho de liquidação por defeito para casos de uso onde velocidade e custo são críticos: zonas turísticas, marketplaces, categorias com elevada taxa de devoluções e comerciantes transfronteiriços. À medida que a aceitação se integra nos fluxos POS existentes, as questões tornam-se operacionais, não filosóficas: como definir escalões de MDR, que regras de reembolso automatizar, que redes cumprem padrões de resposta a incidentes, como reportar posições em stablecoins para liquidez e ALM. A resposta, repetidamente, é que o dinheiro a comportar-se como software torna o checkout mais inteligente, mais barato e mais rápido — algo difícil de ignorar para qualquer retalhista. A Pick n Pay provou que o front-end pode manter-se familiar; a MoneyBadger e outros mostram que o back-end pode ser seguro e conforme; e, em conjunto, apontam para uma experiência de pagamento que finalmente liquida tão depressa quanto vende.
Disclaimer: Este artigo é uma tradução autorizada do original intitulado “What happens to card economics when stablecoins stroll up to the till in SA?” escrito por Nkahiseng Ralepeli e publicado originalmente no site Finextra. A tradução foi realizada pela equipa do FintechAO que assume total responsabilidade por eventuais imprecisões na adaptação para o português.

Nkahiseng Ralepeli
Nkahiseng Ralepeli é um Product Lead experiente no setor de fintechs e ativos digitais, especializado no desenvolvimento de estratégias de stablecoins, tokenização e inovação financeira. Com uma trajetória marcada por atuações em startups na EMEA e nos EUA, tem um forte foco na adoção de tecnologias emergentes para transformar pagamentos, mercados cambiais e financiamento do comércio internacional.
