A obtenção da licença MiCA em Chipre marca um novo capítulo para a Revolut e para o ecossistema europeu de criptoativos.
Ao garantir autorização para operar em toda a União Europeia, a fintech britânica posiciona-se na linha da frente do novo regime regulatório que começa a moldar o futuro das finanças digitais.
Contudo, esta conquista chega num momento em que a empresa enfrenta restrições no Reino Unido, onde as autoridades continuam a adiar a emissão da licença bancária plena, citando preocupações com riscos operacionais e de controlo interno.
A coexistência destes dois cenários — avanço na UE e travão em Londres — simboliza o duplo desafio das fintechs globais: crescer rapidamente, mas sob o olhar atento dos reguladores.
Chipre como ponte europeia para a MiCA
A escolha de Chipre como jurisdição para a licença MiCA não é aleatória. O país tornou-se um dos primeiros a adaptar a sua estrutura regulatória para acolher prestadores de serviços de criptoativos (CASPs) sob as novas regras da Markets in Crypto-Assets Regulation (MiCA).
A licença concedida pela CySEC permite à Revolut oferecer serviços cripto em todos os Estados-Membros, beneficiando do “passaporte europeu” previsto pelo regulamento.
A Revolut introduziu o comércio de criptoativos na sua aplicação em 2017 e lançou, em 2024, a plataforma Revolut X, destinada a traders mais avançados.
Agora, sob a MiCA, passa a operar num ambiente legal mais claro e previsível, com regras uniformes sobre proteção do investidor, transparência e segregação de fundos.
Entre a inovação e a prudência regulatória
O caso da Revolut ilustra bem a tensão entre inovação tecnológica e prudência regulatória.
A licença MiCA representa uma oportunidade para consolidar a confiança dos utilizadores e demonstrar maturidade institucional.
Por outro lado, o impasse no Reino Unido lembra que a escala global traz responsabilidades acrescidas em matéria de compliance, governação e gestão de risco.
As autoridades britânicas têm alertado para a necessidade de robustecer os controlos internos antes de conceder uma licença bancária.
Já a União Europeia, através da MiCA, oferece um enquadramento que recompensa as fintechs que investem em conformidade estrutural.
Um sinal para o setor fintech
O movimento da Revolut envia uma mensagem clara ao setor: a nova vantagem competitiva é a conformidade regulatória. À medida que a MiCA redefine o mapa europeu das criptofinanças, empresas que aliarem agilidade à robustez regulatória ganharão espaço num mercado cada vez mais maduro.
A Revolut parece compreender isso — e, ao fazê-lo, inaugura uma nova fase na convivência entre regulação, inovação e confiança.

Nunes Sole
Nunes Sole é um profissional sénior com mais de 16 anos de experiência no setor financeiro, especializado em governança corporativa, compliance, gestão de risco e conformidade regulatória, certificado pela International Compliance Association (ICA) em Financial Crime Risk in Cryptocurrencies. É fundador e articulista do FintechAO, onde escreve sobre inovação financeira, regulação de criptoativos e transformação digital, com foco na promoção da literacia e confiança no ecossistema fintech lusófono.
