
No debate global sobre fintech, o destaque recai frequentemente sobre os suspeitos do costume: a Revolut, de Londres, pela sua rápida expansão; o Nubank, do Brasil, pela obsessão com o cliente; ou o M-Pesa, do Quénia, por ter sido pioneiro no mobile money. Naturalmente, são estes os titãs que usamos como referência.
Mas, se olharmos para os dados que estão a emergir da África Austral neste momento, em particular de Angola, começa a formar-se uma nova narrativa. É a história do MULTICAIXA Express (MCX Express), e os números sugerem que este se tornou, de forma discreta, uma das plataformas financeiras mais envolventes de África e, provavelmente, do mundo.
Quando retiramos o ruído do marketing e analisamos apenas métricas de comportamento dos utilizadores, o MCX Express não está apenas a competir com padrões globais, em várias categorias-chave, está a defini-los.
No mundo das aplicações, a “taxa de retenção diária” é o Santo Graal. Trata-se da relação entre Utilizadores Activos Diários e Utilizadores Activos Mensais.
- Aplicações bancárias tradicionais: apresentam, tipicamente, uma taxa de retenção diária de 20 a 25%. Os utilizadores entram para consultar o saldo ou fazer uma transferência e saem.
- Redes sociais: aplicações como o Instagram ou o WhatsApp apontam para 50% ou mais.
A realidade do MCX Express
Com 2,6 milhões de utilizadores registados e 2 milhões activos mensalmente, o MCX Express conta com mais de 1,1 milhão de Utilizadores Activos Diários (DAU).
Isto corresponde a uma taxa de retenção diária superior a 50%.
Esta métrica diz-nos que, para milhões de angolanos, o MCX Express ultrapassou a categoria de “ferramenta utilitária”. Tornou-se um hábito diário, tão fundamental na rotina matinal como verificar mensagens.
O rei da frequência: Volume? Sim, mas frequência? Sim, por favor!
O indicador mais impressionante, no entanto, é a intensidade de uso. Com que frequência um utilizador realiza, de facto, transacções?
Enquanto um líder global como a Revolut regista cerca de 16 a 20 transações por mês* por utilizador, e o poderoso M-Pesa apresenta uma média de 31 a 34*, o utilizador do MCX Express executa mais de 40 operações financeiras todos os meses.
Não se trata apenas de pagamentos; envolve levantamentos, serviços, transferências e a gestão da liquidez de todo um agregado familiar.
Por fim, é necessário falar de valor. Em muitos mercados emergentes, um elevado volume de transacções está frequentemente associado a um baixo valor por transacção (micro-pagamentos).
O MCX Express parece desafiar essa lógica. O utilizador médio movimenta mais de 1,2 milhões de kwanzas (aproximadamente USD 1300) por mês através da aplicação.
Numa economia com o perfil de PIB per capita de Angola, este valor é impressionante. Indica que a aplicação capturou quase por completo uma quota da carteira financeira da classe média e média-alta.
Com mais de 220 milhões de operações financeiras processadas mensalmente, o ecossistema MCX Express alcançou aquilo que a maioria das aplicações bancárias e de pagamentos tenta construir durante anos, investindo milhares de milhões: essencialidade.
Da próxima vez que procurarmos estudos de caso sobre como digitalizar uma economia ou como construir um produto com elevada retenção, talvez não seja necessário olharmos para a Europa ou para os Estados Unidos. O benchmark está aqui mesmo em África, em Angola.
*Fontes de dados: Relatório Anual da Revolut (2024); Relatório Anual da Safaricom/M-Pesa (2024).
VISÃO GERAL: Scorecard do MCX Express
(Todos estes números com apenas 30% da população bancarizada)
| Indicador | Valor |
| Utilizadores registados | 2,6 milhões |
| Utilizadores activos (mensal) | 2 milhões |
| Tráfego (diário) | >1 milhão de utilizadores activos |
| Frequência | >40 operações por utilizador/mês |
| Volume médio mensal por utilizador | ~1.300 USD movimentados |
| Penetração de cartões | >53% de todos os cartões bancários activos no mercado estão ligados à aplicação |
| Crescimento mensal | +3% (utilizadores) / +3% (cartões) |
| Crescimento anual | +85% (em termos homólogos) |
Disclaimer: Este artigo é uma tradução autorizada do original intitulado “MULTICAIXA Express: A Super(B) APP” escrito por Eduardo Bettencourt e publicado originalmente no Linkedin. A tradução foi realizada pela equipa do FintechAO que assume total responsabilidade por eventuais imprecisões na adaptação para o português.

Eduardo Bettencourt
Eduardo Bettencourt é Administrador Executivo na EMIS, onde lidera áreas-chave como estratégia comercial, comunicação, marketing e desenvolvimento de produto, contribuindo para a transformação digital da organização. É MBA pela The Lisbon MBA e mestre em Redes de Sistemas Informáticos e Telecomunicações pelo Instituto Superior Técnico (Lisboa). No FintechAO, escreve sobre pagamentos, inovação financeira e inclusão financeira.
