As stablecoins podem reduzir depósitos bancários, alerta um novo documento de trabalho do Banco Central Europeu (BCE). Segundo o estudo, a expansão destes ativos digitais pode alterar a forma como os bancos captam recursos e concedem crédito na zona euro.
O relatório indica que uma adoção generalizada das stablecoins pode levar os clientes a transferirem parte dos seus depósitos bancários para ativos digitais. Esse movimento pode limitar a capacidade de intermediação financeira dos bancos e criar novos desafios para a política monetária.
Além disso, o documento refere que essa mudança pode aumentar a incerteza na transmissão das taxas de juro definidas pelo BCE para o crédito concedido pelos bancos.
Stablecoins podem reduzir depósitos bancários na zona euro
De acordo com o working paper do BCE, publicado na terça-feira, uma rápida expansão das stablecoins pode provocar uma realocação de depósitos de retalho para ativos digitais.
Consequentemente, os bancos poderão enfrentar maior dificuldade em manter os níveis de financiamento necessários para conceder crédito. Como resultado, a ligação entre decisões de política monetária e volumes de empréstimos pode tornar-se menos previsível.
Os autores do estudo – Carlo Altavilla, Miguel Boucinha, Lorenzo Burlon, Ramon Adalid, Roberta Fortes e Franziska Maruhn – destacam que o impacto seria ainda maior caso o mercado fosse dominado por stablecoins indexadas a moedas estrangeiras.
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Stablecoins ligadas ao dólar aumentam preocupações
O documento também alerta para riscos adicionais caso as stablecoins sejam denominadas em moedas que não o euro. Instrumentos ligados ao dólar norte-americano, por exemplo, poderiam ganhar influência nos mercados europeus.
Nesse cenário, os bancos da zona euro poderiam tornar-se mais dependentes de financiamento em moeda estrangeira.
Além disso, as flutuações na procura por stablecoins indexadas a moedas externas poderiam transmitir choques monetários e financeiros para a economia europeia.
Segundo o documento, essas variações poderiam importar condições de liquidez externas para a zona euro. Assim, a política monetária definida internamente poderia tornar-se menos eficaz.
Reguladores europeus acompanham evolução do mercado
As preocupações com stablecoins têm aumentado entre autoridades europeias. Em janeiro, o membro da Comissão Executiva do BCE Piero Cipollone afirmou que stablecoins indexadas ao dólar podem representar uma ameaça à estabilidade financeira.
Por outro lado, algumas instituições financeiras europeias já analisam soluções reguladas baseadas no euro.
Entre elas estão Citigroup, ING, UniCredit e DekaBank, que trabalham no desenvolvimento de instrumentos digitais denominados em euros.
No entanto, o documento do BCE reforça que a crescente utilização de stablecoins pode ter impactos relevantes no sistema bancário e na condução da política monetária.

